Conta-se que, em 1880, o futebol chegou ao Brasil pelas mãos dos jesuítas do Colégio São Luís, em Itu-SP. Segundo uma corrente historiográfica, foi ali que o esporte começou a ser praticado de forma organizada no país, anos antes de Charles Miller popularizá-lo entre os clubes paulistas.

Essa história foi reunida no livro “Pontapé inicial para o futebol no Brasil”, que apresenta o Colégio São Luís como um dos primeiros lugares onde o futebol foi praticado em território brasileiro.

Essa ligação entre o futebol e o catolicismo permaneceu viva durante décadas. Em 1958, na final da Copa do Mundo contra a Suécia, o Brasil precisou improvisar um uniforme azul porque ambas as seleções usavam a camisa amarela. A cor escolhida foi associada ao manto de Nossa Senhora Aparecida, padroeira do Brasil, e aquela camisa tornou-se um dos maiores símbolos da história da Seleção após a conquista do primeiro título mundial.

É justamente por isso que chama a atenção o debate levantado após a recente eliminação da Seleção Brasileira. Se, durante boa parte de sua história, a identidade religiosa do futebol brasileiro esteve fortemente associada ao catolicismo, hoje o cenário parece outro. Depois da eliminação do Brasil, o The Times destacou uma discussão que vem ganhando espaço: será que a mudança religiosa entre os jogadores também mudou a identidade da Seleção Brasileira?

Afinal, entre os jogadores, ao menos um se declara católico, enquanto uma parcela significativa deles professa a fé evangélica, especialmente em correntes neopentecostais. Ao entrar em campo, tornou-se menos comum ver o persignar-se com o sinal da cruz, mas tornou-se cada vez mais frequente ver jogadores de olhos fechados e mãos levantadas para o céu. O desaparecimento gradual do sinal da cruz como gesto predominante evidencia a ruptura de uma tradição que, durante décadas, marcou o imaginário religioso do futebol brasileiro.

Essa pergunta faz-me lembrar imediatamente de Max Weber.

Weber, em sua obra A Ética Protestante e o Espírito do Capitalismo, demonstrou que o protestantismo ajudou a construir uma ética baseada na responsabilidade individual, na disciplina e na relação direta entre o indivíduo e Deus. Essa visão fortalece a autonomia pessoal e o mérito individual.

Já a tradição católica sempre deu maior ênfase ao corpo, à comunidade e à ideia de que ninguém caminha ou se salva sozinho.

A minha hipótese é que essa mudança cultural também chegou ao futebol. Se, como ensinou Max Weber, a religião ajuda a moldar valores, esses valores podem influenciar determinados comportamentos, inclusive a maneira como um grupo joga, coopera e se sacrifica pelo coletivo.

O futebol brasileiro sempre foi reconhecido pelo jogo em equipe. O craque era considerado genial porque fazia o time inteiro jogar melhor.

Hoje, vemos grandes talentos individuais, mas um coletivo que muitas vezes não consegue transformar esse talento em futebol.

É claro que a religião não explica, por si só, o desempenho da Seleção. Mas, como ensinava Max Weber, a religião molda valores, e valores moldam comportamentos.

Talvez seja justamente por isso que o The Times decidiu discutir esse tema. Porque, para entender a crise do futebol brasileiro, talvez não baste olhar para o treinador ou para a tática.

Talvez seja preciso olhar também para a cultura, inclusive a cultura religiosa, que está formando essa geração de jogadores.

Padre Bruno Frannguelli, SJ – Doutorando em Ciências Sociais (Roma)

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