Antes de entrar em campo, jogadores rezam juntos, recebem medalhas de santos e pedem a intercessão de Nossa Senhora. No centro dessa tradição está o padre Nate Wills, capelão que acompanha atletas e treinadores muito além dos dias de jogo.

Por: ESPORTE FÉ, 08 DE SETEMBRO DE 2026.

Em meio ao barulho de um estádio lotado, à pressão por resultados e a uma das estruturas mais tradicionais do esporte universitário dos Estados Unidos, existe um momento em que o futebol deixa de ser protagonista.

Os jogadores do Notre Dame Fighting Irish se ajoelham lado a lado e rezam o Pai-Nosso. Em seguida, o capelão da equipe, padre Nate Wills, C.S.C., faz uma invocação:

“Nossa Senhora, Rainha da Vitória!”

E os jogadores respondem:

“Rogai por nós!”

A cena faz parte de uma relação entre esporte e espiritualidade construída ao longo de gerações na Universidade de Notre Dame, instituição católica fundada pela Congregação de Santa Cruz, no estado de Indiana. Hoje, uma das pessoas responsáveis por manter essa identidade presente dentro do futebol americano é o padre Nate Wills.

Ordenado sacerdote em 2006, Wills é também professor da universidade. Formado em Educação e Teologia por Notre Dame e doutor em liderança e políticas educacionais pela Universidade de Wisconsin-Madison, ele divide sua rotina entre a vida acadêmica, a formação católica e o acompanhamento espiritual dos atletas.

Mas, quando está à margem do campo, sua principal preocupação não é o placar.

Muito mais que rezar antes do jogo

A função de um capelão dentro de uma equipe esportiva pode parecer, para quem observa de fora, restrita às orações antes das partidas.

Com Wills acontece justamente o contrário.

Ele acompanha jogadores e treinadores durante a temporada e está presente quando aparecem situações que nenhuma preparação física consegue resolver: uma lesão grave, uma derrota difícil, dúvidas sobre o futuro, problemas familiares ou questões pessoais e espirituais.

Em setembro de 2026, ao falar sobre sua experiência nos bastidores da equipe, Wills destacou justamente a importância dessa presença nos bons e nos maus momentos. Para ele, o trabalho pastoral passa por saber ouvir, acompanhar e permanecer próximo.

Essa convivência pode continuar muito depois da última partida de um atleta por Notre Dame.

Há ex-jogadores que foram acompanhados por Wills em processos de conversão ao catolicismo e que, anos depois, voltaram a encontrá-lo em outros momentos decisivos da vida. O ex-atleta Hunter Bivin, por exemplo, contou que o sacerdote o orientou em sua entrada na Igreja, posteriormente celebrou seu casamento e, mais tarde, batizou sua filha.

É uma dimensão do esporte que raramente aparece nas estatísticas.

Para Wills, antes e depois do futebol, existe uma identidade que nenhum resultado esportivo pode retirar: a de filho amado de Deus.

Uma medalha diferente antes de cada partida

Uma das tradições mais curiosas do futebol de Notre Dame atravessou mais de um século.

Antes das partidas, jogadores e integrantes da comissão técnica recebem medalhas religiosas abençoadas pelo capelão. A cada jogo, um santo diferente é escolhido.

A tradição remonta a 1923, quando o então padre John O’Hara distribuiu medalhas antes de uma partida contra o Army. Cem anos depois, o costume continua vivo.

Wills recebeu de seu antecessor um planejamento de cinco anos para a escolha dos santos. A intenção é evitar repetições e permitir que, durante sua passagem pela universidade, os atletas conheçam diferentes testemunhos de santidade.

Em algumas ocasiões, o padre altera a programação para relacionar o santo ao adversário, ao local da partida ou a uma data específica do calendário litúrgico.

Mais do que um objeto entregue antes do jogo, a medalha funciona como convite para conhecer uma história.

Segundo Wills, os diferentes santos mostram aos jovens que existem muitos caminhos particulares para seguir Jesus e buscar uma vida de santidade.

Fé em uma equipe formada por diferentes religiões

Notre Dame possui uma identidade explicitamente católica. Isso não significa, porém, que todos os atletas que vestem a camisa do Fighting Irish sejam católicos.

Jogadores de diferentes tradições cristãs e religiosas fazem parte do programa.

É justamente nesse ambiente que Wills procura exercer sua missão pastoral: preservar as tradições da universidade sem transformar a fé em uma simples obrigação esportiva.

As práticas católicas convivem com atletas de diferentes crenças, e o acompanhamento espiritual parte também da escuta e do relacionamento pessoal. Na entrevista publicada em 8 de setembro pelo Catholic Review, Wills destacou como essas tradições são vivenciadas em um elenco religiosamente diverso.

A oração coletiva, portanto, não aparece apenas como um ritual de busca pela vitória.

É também um lembrete de que existe algo maior do que o jogo.

“Escolha o difícil”

Dentro do programa de futebol americano de Notre Dame existe uma expressão que Wills incorporou às suas reflexões sobre espiritualidade:

“Choose Hard” — “Escolha o difícil”.

A filosofia propõe não procurar automaticamente o caminho mais confortável. Disciplina, treinamento, perseverança, renúncia e responsabilidade fazem parte da formação de um atleta — e também podem dialogar diretamente com a vida espiritual.

O conceito aparece entre as histórias reunidas pelo sacerdote em seu livro Pray Like a Champion Today: Sacred Stories from the Sidelines of Notre Dame Football, publicado em 2025.

A obra nasceu justamente daquilo que Wills viu durante seus anos convivendo com os atletas.

E houve uma descoberta inesperada.

Quando começou seu trabalho como capelão, imaginava que sua responsabilidade seria ajudar os jovens a encontrar Jesus. Com o passar dos anos, percebeu que o movimento também acontecia na direção contrária: muitas vezes foram os próprios atletas que, por suas atitudes e histórias, fortaleceram a fé do sacerdote e o aproximaram de Deus.

O desafio de encontrar silêncio

A missão de Wills ganhou ainda outra dimensão nos últimos anos.

Além de sacerdote e capelão, ele é pesquisador da relação entre educação e tecnologia. Seu trabalho acadêmico envolve o uso de recursos tecnológicos no ensino, área que passou inevitavelmente a incluir as discussões sobre inteligência artificial.

Esse conhecimento fez com que o padre passasse a refletir também sobre um problema que ultrapassa o esporte: a dificuldade de permanecer verdadeiramente presente.

Celulares, redes sociais, notificações, inteligência artificial e estímulos permanentes disputam continuamente a atenção dos jovens.

Para Wills, oração, silêncio e capacidade de prestar atenção ganham ainda mais importância nesse cenário. Em sua reflexão mais recente sobre futebol e fé, o sacerdote relacionou diretamente a vida espiritual aos desafios provocados pelas distrações digitais contemporâneas.

Quando a partida termina

Talvez seja justamente aí que a história do padre Nate Wills encontre seu significado mais profundo.

Notre Dame é uma potência do esporte universitário americano. Há milhares de torcedores nas arquibancadas, transmissões nacionais, pressão, dinheiro, expectativas e jovens tentando chegar ao futebol profissional.

Mas, no meio desse universo, existe um padre caminhando pela lateral do campo.

Às vezes ele está rezando com um jogador lesionado. Em outras, conversando sobre uma dificuldade pessoal. Antes da partida, distribui medalhas. Anos depois, pode estar celebrando o casamento daquele mesmo atleta ou batizando seu filho.

E, quando chega a hora de entrar em campo, jogadores de origens e histórias diferentes se ajoelham juntos.

Por alguns instantes, o estádio pode esperar.

Eles rezam.

Porque, na visão de Wills, formar um campeão não significa apenas prepará-lo para vencer uma partida.

Significa ajudá-lo a compreender quem ele será quando o jogo terminar.

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