A relação entre o futebol brasileiro e as religiões de matriz africana nunca foi ausente, mas frequentemente foi invisibilizada. É a partir dessa tensão que o novo documentário do PELEJA se constrói, propondo um olhar que desloca o eixo tradicional das narrativas esportivas e coloca em evidência dimensões culturais e espirituais que atravessam o jogo.

Ao reunir pesquisadores, praticantes e vivências diretas dessas religiões, a produção intitulada “Por que o futebol quer esconder a ‘macumba‘“ apresenta o futebol como um espaço onde diferentes expressões de fé coexistem, ainda que de forma desigual.
Entre os entrevistados está Rodrigo Nestor, jogador do Bahia, que participa do documentário em um dos seus relatos mais aprofundados sobre a própria fé no contexto do esporte.
Se dentro de campo vitórias e derrotas são compartilhadas por atletas de diferentes crenças, fora dele o reconhecimento dessas espiritualidades segue marcado por distorções e preconceitos.
“Existe uma tentativa constante de apagar essa relação. Quando falamos de futebol brasileiro, muitas vezes ele é enquadrado dentro de uma lógica única, que não contempla a diversidade cultural que realmente construiu esse esporte. Trazer esse tema também é uma forma de descolonizar esse olhar”, afirma Luiza Mou, produtora do PELEJA.
A discussão proposta pelo documentário também dialoga com transformações mais amplas no próprio futebol. Em um cenário de elitização crescente, o esporte passa a restringir não apenas o acesso, mas também as narrativas que ganham espaço, afastando-se de elementos historicamente associados à cultura popular.
“Quando o futebol se distancia da ginga, do improviso, ele também se afasta de referências culturais importantes. Não é só uma questão financeira, é sobre quais histórias são valorizadas e quais acabam ficando de fora”, destaca a produtora.
Nesse contexto, o documentário se posiciona como uma tentativa de ampliar o campo de visão sobre o esporte, indo além da cobertura cotidiana e propondo uma leitura que conecta futebol, identidade e espiritualidade.
“Vejo esse trabalho como um primeiro passo. Ele funciona como uma chave de acesso para quem está disposto a olhar para esse tema com mais atenção. É um convite para ir além do futebol do dia a dia e entender que essas religiões também fazem parte desse ecossistema”, explica Mou.
Entre vivência e escuta
A construção do documentário parte do encontro entre diferentes experiências que, ao se cruzarem, revelaram uma pauta comum. De um lado, a vivência de Luiza Mou, que cresceu em um terreiro e já carregava o desejo de contar essa história a partir de dentro.
Do outro, o olhar de Julia Ferratoni, diretora do projeto, interessada em compreender e dar visibilidade às religiões de matriz africana, especialmente diante de episódios recentes de intolerância no futebol. Dessa troca, a narrativa se constrói entre experiência e escuta.
Durante a produção, essa relação com o tema não se limitou ao conteúdo, mas atravessou também o próprio processo de realização. Segundo a produtora, o respeito às dinâmicas do sagrado foi determinante para a condução do projeto.
“Tudo estava muito atrelado ao sagrado. Não era só uma questão de agenda ou logística. Existia um respeito pelas permissões, pelos tempos dos orixás das casas e das pessoas envolvidas. Isso impactou diretamente a forma como organizamos o documentário e exigiu um cuidado constante ao longo de todo o processo”, explica.
O documentário propõe ampliar o debate sobre a presença das religiões de matriz africana no futebol brasileiro, abordando temas como representatividade, intolerância e reconhecimento dentro do esporte.
“A nossa intenção é que pessoas de axé se sintam vistas dentro do futebol e reconheçam ali suas vivências. E que quem não faz parte dessas religiões possa se aproximar com mais abertura. Se conseguirmos gerar reflexão e respeito, já é um avanço importante”, conclui Luiza Mou.
O documentário já está disponível no canal do PELEJA no YouTube e nas redes sociais do veículo.
