Ser atleta e ser evangelizador podem parecer universos distantes. Um tem a ver com competição, superação física e vitórias; o outro, com oração, comunidade e busca pela santidade. Mas será que essas duas realidades têm mais em comum do que pensamos? 

Para responder a essa pergunta, conversamos com Amábilie Koester, ex-jogadora profissional de vôlei e missionária da Comunidade de Vida Shalom, e João Pedro, atleta de handebol do Esporte Clube Pinheiros e jovem da Obra Shalom.

A disciplina que leva à santidade

Amábilie sabe bem o que significa sacrificar-se em prol de um objetivo. Como atleta profissional, aprendeu que, para vencer, era necessário viver uma rotina rígida, cheia de renúncias. “A vida de atleta me deixou a marca da vida comunitária, que pode ser vista como a vida em equipe! Todos cooperando para um bem comum. Hoje, o meu bem comum é a santidade,” afirma.

Essa mesma disciplina que moldava seus treinos e campeonatos agora direciona sua vida missionária. “O espírito de sacrifício, a resiliência e o foco que eu adquiri são hoje fundamentais para a minha caminhada em Deus.”

Além disso, Amábilie destaca que, mesmo na vida missionária, é importante manter a prática de esportes. “Fortalece minha vontade e me ensina a persistir nos desafios espirituais. O esporte é mais que um cuidado com a saúde física; é um exercício que reflete a perseverança necessária para buscar a santidade todos os dias.”

O treino para a alma

João Pedro, um jovem de apenas 18 anos que já desponta como atleta promissor no handebol, encara um desafio semelhante. Ele vê no esporte uma metáfora perfeita para a vida espiritual. “Da mesma forma que nós, atletas, devemos nos gastar nos treinos, jogos e competições, devemos, de forma ainda mais intensa, buscar a Deus por meio da Eucaristia e da oração diária. Nosso treino ajuda, mas quem nos sustenta é o Ressuscitado que passou pela cruz,” reflete.

João também ressalta a importância de reconhecer a graça de Deus em cada conquista. “É muito complicado explicar para um atleta que tudo que ele é e alcança é pura graça, bondade e misericórdia de Deus. No meio esportivo, essa mentalidade é esquecida. Mas nunca podemos perder de vista que, antes de atletas, somos filhos criados para amar a Deus.”

Riscos que vão além das quadras

O esporte não é só um campo de superação física. Ele também apresenta desafios para a vida de santidade. João Pedro é direto ao falar sobre isso: “Existe um grande cuidado com a vivência da castidade. O meio esportivo, como praticamente todo o mundo, não prega a castidade. Cabe a nós, atletas que queremos viver a santidade, sermos luz do mundo e sal da terra.”

Ele alerta ainda sobre os perigos do ego e da busca por reconhecimento. “No esporte, somos muito tentados a nos afundar no egoísmo e na nossa autoimagem. Por isso, a vivência com Deus e a oração precisam ser constantes para não nos perdermos no orgulho.”

Amábilie complementa com um alerta fundamental: “O grande risco é ‘não achar tempo’ para Deus. Me deparei com isso logo que tive minha experiência com Ele. A rotina intensa dos treinos e compromissos pode facilmente tomar todo o seu dia. Zelar por esse tempo com Deus, através da oração, é o segredo para uma vida de santidade em qualquer lugar, sobretudo dentro do esporte.”

Esporte e Evangelho: uma missão em comum

Ao final dessas conversas, fica claro que a conexão entre o esporte e o Evangelho está na busca incansável pelo que realmente importa. Seja treinando para uma competição, seja evangelizando nos desafios do dia a dia, o espírito é o mesmo: gastar-se por amor.

E para Amábilie, que um dia trocou as redes do vôlei pelas “redes de pesca” do Senhor, a missão continua: “Hoje, viver a santidade é o meu troféu mais valioso.”